A revolução dos meios de pagamento digitais

Se você tem mais de quarenta anos, provavelmente carregou – e usou – um talão de cheques. Se você tem menos de trinta, provavelmente nunca viu um, e certamente teria dificuldade em preencher uma de suas folhas. São cerca de dez anos de diferença entre um e outro indivíduo, mas nessa década há mais avanços nos meios de pagamento do que nos últimos vinte séculos.

Assim como tantas outras atividades humanas, o processo de comprar alguma coisa tem passado por uma verdadeira revolução. E pelo mesmo motivo: a chegada da Era da Informação. Ou, como querem alguns, o mundo digital.

Vamos voltar à prosaica folha de cheque. Ela em si era a resposta a um problema da humanidade: como carregar, transportar e transferir valores elevados? No passado, colocava-se moedas de ouro e prata em um baú, e o baú era levado em uma carruagem. Era incômodo, pesado, mas não havia outro jeito. A invenção das cédulas, pedaços de papel representando uma certa quantidade de dinheiro diminuiu o problema do peso, mas não do volume. A folha de cheque, por sua vez, era leve, fácil de levar, e se transformava em qualquer valor que se escrevesse nela – desde que o cheque tivesse fundos.

Parecia a solução ideal, até que surgiu outra melhor: as transferências digitais. E tudo começou com os primeiros caixas eletrônicos, que permitiam realizar operações financeiras automaticamente em lugares que não eram agências bancárias. Na segunda geração, os caixas apareceram nas próprias agências, aliviando o árduo trabalho dos funcionários. Aquele jovem com menos de trinta anos do primeiro parágrafo pode se surpreender, mas houve um tempo em que todas as operações bancárias – de um simples extrato a uma transferência – eram feitas ao vivo por um empregado do banco. O quinto dia útil do mês era certeza de longas filas nas agências.

Todo mundo gostou dos caixas eletrônicos – banqueiros, bancários e clientes. E o próximo passo não demorou: os websites dos bancos. Agora, não era necessário sair de casa para pagar as contas ou checar o saldo. E com a chegada e a popularização dos smartphones, os sites viraram apps, mais seguros e com mais funcionalidades.

Os antigos usuários de folhas de cheque foram se adaptando à nova realidade– com maior ou menor facilidade. Mas então os Millenials (os já mencionados usuários com menos de trinta anos) chegaram à vida adulta, e aos boletos. E, ao contrário dos vovôs do cheque, Millenials nasceram com computador no berço. O banco não poderia ser diferente.

Logo, empreendedores antenados viram uma oportunidade. E assim surgiram os bancos digitais como Nubank, Girabank, C6 e outros. Empresas que não têm agências, nem gerentes, muito menos folhas de cheque. Bancos que, em vez de adaptar os serviços a um app, foram criadosa partir do app. E, por isso, ficam muito mais à vontade no ambiente digital. O banco digital não marreta um processo existente para dentro de um aplicativo. Ele cria o processoa partirdo aplicativo.

E como a informação é uma linguagem universal, os meios de pagamento em forma virtual puderam ultrapassar fronteiras. Hoje, é possível comprar – e pagar – na China, sem precisar ser Marco Polo. A evolução dos meios digitais de transferência também trouxe a possibilidade de integração entre plataformas e usuários de formas até então restritas, para não dizer impossíveis. Em portais de entretenimento virtual, ferramentas como Screw, MuchBetter e Neteller permitem não apenas pagamentos, mas também, e principalmente, recebimentos. Uma conveniência fundamental para ambos os lados do negócio.

Dos antigos baús de moedas de ontem ao imediatista Pix de hoje, os processos para realizar um pagamento mudaram de maneira assombrosa. É claro que ainda existem desafios, especialmente com relação à segurança, mas isso é um fator inerente à circulação de dinheiro.

Antigamente assaltavam a diligência, hoje distribuem malwares. Mas, feito o balanço, os meios de pagamento digitais são uma forma poderosa de globalização, no melhor sentido da palavra, pois permite que o capital flua mais rápido, mais fácil e mais longe. Ou alguém aí ainda quer carregar talão de cheques?